Cais do Sodré
Toino Ventura era um pescador que, embora novo, se achava já crestado pelas fainas do mar. Certo dia, ao voltar à terra e como era seu hábito, dirigiu-se à «Flor do Cais do Sodré» uma taberna de que era dono Ti Manel Estivador onde invariavelmente iam dar todos os pescadores e a modesta gente das redondezas. E, como era característica da locanda, surgiam às vezes sem graves motivos, zaragatas que levavam à pancadaria. Foi o que sucedeu quando, certa vez, o Toino que acabava de desembarcar, se dirigiu à «Flor do Cais». Palavra puxa palavra, e às duas por três arma-se uma briga em consequência da qual aquele ficou ferido. Como era hábito nos domínios do Ti Manel, o ferido, seguindo assim a tradição da casa, foi levado para o andar alto da taberna. Chamado o médico para acudir ao Toino Ventura, reparou, casualmente, em Manuela Maria, filha do taberneiro, uma jovem de 18 anos que estava paralítica, tendo chegado à conclusão que só um tratamento algo dispendioso, cerca de oitenta contos, poderia restituir à rapariga a sua saúde. O ferimento do Toino e a sua recuperação não viria a ser muito morosa em consequência da dedicação de Manuela Maria. Daí nascer uma simpatia mútua que conduziria ao amor. Toino, no entanto, tem de embarcar para a Terra Nova, para a faina da pesca do bacalhau. Os meses passam e, por fim, ele regressa cheio de saudades da sua namorada. Entretanto ocorre um roubo que atingia a soma de 80 contos e do qual não se chegara a descobrir o autor. Uma noite Toino censura Ti Manel Estivador por não tentar nada para dar melhoras à filha. Pouco depois dois homens até então honrados e fora de toda a suspeita, resolvem roubar, movidos pelo mesmo desejo benfeitor... Quando estavam prestes a ser presos, chegou da Terra Nova a apólice do seguro do Zé Fateixa que fora levado e colhido pelo nevoeiro, não deixando rasto. O dinheiro antes roubado foi assim restituído sem qualquer prejuízo, e Manuela Maria pôde fazer a operação que a libertaria do martírio de tantos anos, e partir por fim à conquista da felicidade que Toino lhe proporciona, com ele se casando. (M. Félix Ribeiro in Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949)